O MODELO AMERICANO DO MEU TIPO INESQUECÍVEL E SUA

REPERCUSSÃO NO IMAGINÁRIO BRASILEIRO

 

Aurora Fornoni Bernardini – USP

 

A “América” em retroimagem

 

Italo Calvino abre seu livro de ensaios Coleção de areia[1](ainda não traduzido em português) com o escrito de l976 “Como era novo o Novo Mundo”, antecipador das comemorações do Descobrimento e, ao mesmo tempo, marcado por certo tom nostálgico, ou quem sabe, incerto entre passado e futuro, constatando: “nunca o novo corresponde à idéia que nós fazíamos dele”[2]. Mais ainda, reportando-se a um quadro, que se encontra no Louvre,do pintor holandês do sec. XVIII, Franz Jansz Post, que marca o contato entre a pintura paisagista holandesa e a natureza brasileira, diz Calvino: “Pelos quadros setecentescos de Franz Post no Brasil ainda perpassa o respiro ansioso da descoberta, a aflição do encontro com algo de indefinido, algo que não entra em nossas espectativas. A primeira observação sugerida pela exposição do Grand Palais[3] é que o Velho Mundo colhe com mais força as imagens do Novo quando ainda não sabe do que se trata, quando as informações são raras e parciais, e só a custo se consegue separar a realidade dos erros e das fantasias”. (Grifos nossos)

A imagem que se faz do novo mundo e o fato desta observação coincidir com a convicção mais abrangente de Calvino de que a memória atualizada é menos forte que a memória imaginada, reiterada em seus livros de crítica igualmente ainda não traduzidos no Brasil[4],nos leva imediatamente a outra obra, dessa vez de Umberto Eco, Gian Paolo Ceserani e Beniamino Placido A redescoberta da América[5] que, dando um salto no tempo, se aproxima da data de nosso objeto, o qual pretende caracterizar certa idéia que se fazia dos Estados Unidos da América do Norte entre os anos 40-50, em particular, via leitura das ediçoes desse período da então popularíssima revista Seleções[6].

“Comecemos pelos romances.”diz-nos no seu ensaio A invenção da América Beniamino Placido, que além de produtor de programas culturais para a TV italiana é colaborador do mais prestigioso jornal da península, La Repubblica. “Esta é uma história que deveras todos conhecem. Os que a viveram, porque a viveram, os que não a viveram, porque ouviram-na contar mais de mil vezes,pelos pais, pelos professores, pelos colegas: a história dos romances de Steinbeck e de Caldwell (e nós acrescentaríamos outros, como os de A. J. Cronin, Pearl S. Buck etc., cujos textos serão vistos a seguir) – que agora nos parecem medíocres mas que então nos pareciam belíssimos, ou ao menos importantíssimos (...)”.

Ao perguntar a um conhecido não particularmente refinado, nem particularmente versado em literatura o porquê desse interesse tão grande nos anos cinquenta por romances e romancistas que, convenhamos, um pouco medíocres eram mesmo, Placido ouviu a seguinte resposta: “O senhor se lembra de como começava As Vinhas da Ira de Steinbeck ?” [este era o nome do romance mais famoso do escritor americano]. E o interlocutor de Placido continuava: “ Pois fique o senhor sabendo que na literatura italiana daquela época não havia caminhões. Se um ou outro teimava em aparecer, jamais se falava em cano de escapamento, se algum cano de escapamento havia, nunca era para se dizer que soltava fumaça”[7].

Placido foi conferir no livro, publicado pela primeira vez em tradução italiana pela Bompiani em l941 e lá encontrou: “Um enorme caminhão vermelho tinha parado diante da venda de secos e molhados, em pleno campo. O cano de escapamento resmungava em surdina, soltando um véu quase invisível de fumaça azulada. Era um caminhão novo em folha e a tinta vermelha brilhava ao sol e nas laterais trazia escrito em letras garrafais OKLAHOMA CITY TRANSPORT CENTER”. Vermelho, interpreta Placido, é o contrário de negro, o negro do Fascismo, que em 41 ainda persistia na Itália. Bebidas, comidas, cano de escapamento e fumaça. Todas coisas das quais não se falava, no Fascismo. Estamos, afinal, em Oklahoma, e ali está-se no meio de coisas concretas, sente-se o cheiro de cavalos, de feno, de pólvora, de tiros, do oeste. E isso abrirá o caminho para o cinema, considerado na época como uma espécie de “literatura popular” e para a propaganda “centrada no produto”, como Ceserani – um dos mais importantes publicitários italianos – verá mais adiante.

 

A - O modelo americano de Meu tipo inesquecível

 

Dito isso, vejamos as leituras que nos propusemos fazer dos textos dos escritores que aparecem como autores da seção Meu tipo inesquecível, textos esses, conforme se sabe, “condensados”como Reader’s Digests, e por nós pesquisados numa coleção de Seleções, cujos números vão de l942 a 1951.

De cada texto será apresentada a “re-condensação”, mas serão citadas literalmente certas passagens (grifadas), com características linguísticas e de conteúdo que as fazem confluir para a criação de certa “imagem” propiciada pela revista, que será analisada em seguida segundo dois tipos de leitura: 1. ingênua ou literal (dada pela leitura “ao pé da letra”da citação em si)e 2. não ingênua ou crítica, segundo a denominação de Beniamino Placido, na obra citada, ou seja, atualizada,entre passado e futuro, conforme a caracterização já mencionada de Italo Calvino.

Embora os textos de Meu tipo inesquecível, mesmo os de escritores,– conforme será visto na relação apresentada mais adiante, nem todos os autores o são– não possuam valor artístico tão somente pelo fato de, originariamente, já serem “condensações” e sua tradução não ser “literária”, mas de certa forma estandardizada (et pour cause não será feita nenhuma análise formal), o intuito muitas vezes formativo-propagandístico da revista torna bastante conspícua a imagem que procuramos configurar, composta por uma série de características que serão ressaltadas, obedecendo à seguinte ordem:

 1. O “homem comum” e a desigualdade entre os homens;

 2. Três características em quatro relatos: a procura da fórmula, o papel dos “formadores de espíritos”;

 3.O fenômeno do “marketing”e seu funcionamento;

 4. Um inato “toque de vulgaridade”.

 

1. O “homem comum” e a desigualdade entre os homens:

Dezembro, 1949

O pai por John Steinbeck

 

Tinha sete anos e era muito orgulhoso – o que quer que isso signifique. Os cabelos cresciam-lhe espetados para a frente, como topete de pônei, e quando ele estava cansado, um dos olhos se desviava um nadinha – menos, porém, do que há um ano.

Passara o tempo em que tinha de subir para seu quarto, sentindo a opressão de um ambiente que o magoava.

(...) Em casa agora estava bem. Na rua é que se sentia mal. Os garotos tinham começado onde o horror da casa acabara.

(...) Quando Alvin dobrava a esquina, a dois quarteirões de distância, podia pressenti-lo, e um calafrio lhe arrepiava a pele. Alvin não dizia nada.Nenhum dos garotos dizia coisa alguma; mas aquilo estava em seus olhos, no olhar com que miravam, olhar que o mortificava com uma pungente sensação de vergonha culposa.A princípio fugira e evitara a companhia dos outros; mas nem sempre era posível fugir, e, ademais, sentia-se muito só.

(...) Estava ele, aquele dia, sentado como de costume na saliência do rodapé da fachada a ver os táxis e a meninada, os velocípedes e os carrinhos de bebê, as amas e os garotos maiores atirando bolas de tênis uns nos outros, de um lado para o outro da rua, por cima do tráfego. Súbito, um deles – Alvin ou qualquer outro, não importa qual – gritou: “Onde está seu pai?”

O que devia ter respondido era “Está viajando”. Mas não o fêz. A pergunta atingiu-o como um soco na boca do estômago. Pelo menos foi assim que a sentiu. Sabia que aquilo era pura crueldade. Os garotos não queriam perguntar; queriam era dizer aquilo, para humilhá-lo e feri-lo. Esta era a intenção.

Era verdade, sim que seu pai estivera fora de casa, viajando centenas de vezes – mas não desta vez.Sabia disso, e subitamente compreendeu que todos eles também sabiam. (...) Apanhado de surpresa, mentiu: “Meu pai está em casa ”.

(...) Um dos meninos mais crescidos interrompeu, por um instante, o gesto de lançar a bola de tenis do outro lado da rua e disse:

“Está maluco. Eles estão divorciados”.

(...) E a coisa horrível continuava ali, estagnada, apodrecendo dentro dele. Quando só, podia esquecê-la; mas não quando os garotos olhavam para ele, nem quando desviavam o olhar.

(...)Naquele dia, sentou-se na saliência do rodapé da fachada e pôs-se a bater no chão com os saltos, daquele jeito que estraga os sapatos, coisa que não se deve fazer. Ficou a olhar para os táxis que passavam.

(...)De repente uma sensação esquisita – uma sensação estranha, explosiva, no peito. Algo apenas pressentido havia causado isso. Olhou rápido para a direita e era verdade. O pai tinha dobrado a esquina e caminhava apressado para ele, a gingar, como era seu jeito.

(...) “Ele está aqui! Vocês querem vê-lo?

 

 

Leitura 1

 

A minúcia, a “terrestridade”, a cotidianeidade que havia (justamente) encontrado em As vinhas da ira o interlocutor de Placido, são visíveis aqui (em lugar do caminhão, aparece o táxi como abertura e como fecho do conto). Mas também é visível uma característica que se insere como um dos primeiros “tijolos” da “tradição americana” (não por nada os portadores desse anseio são meninos, neste e no último (de Sherwood Anderson, q.v) dos relatos relacionados:o não querer ser diferente dos demais; o desejar ser um homem comum (no caso do conto de Anderson, é isso que o filho deseja para o pai).

Isso, por sinal, coincide com o “desafio sobre o qual se edificou a América” (Placido: 101): o respeito pelo homem comum. Em literatura, entre os primeiros, temos Walt Whitman (cf. Apêndice:setembro, l943), que lhe teceu loas no seu clássico Leaves of Grass[8].

 

Leitura 2

 

Hoje, recorrendo ainda ao texto de Placido, sabemos que esse anseio por ser um “homem comum” não é tão comum assim. Ou melhor, o que diferencia basicamente os homens, segundo o ilustre Alexis Tocqueville (A Democracia na América)[9]é o seguinte: Numa sociedade de tipo tradicional, hierárquica, aristocrática, [ou socialista, mas isso Tocqueville não disse] o dinheiro pode ter uma importância relativa. A distinção é feita pela ocupação e desempenho de certo papel. Numa sociedade menos aristocrática, mais igualitária, em que os papéis são mais fluidos, o dinheiro adquire maior importância, pelo fato de ser o único, ou quase o único, instrumento de diferenciação. O anseio americano (não só americano, mas isso não vem ao caso agora) é, portanto, o de se conseguir cada vez mais dinheiro, com tudo o que isso implica.

Ceserani vai mais longe. “Como fazer” – ele diz – “com uma cultura que propõe como algo absolutamente indiscutível a massificação, quando você, e de uma maneira absolutamente indiscutível, vê, ao invés, nela atuando a fragmentação?”. Quem já se apercebera disso – continua explicando Ceserani – fora, primeiramente (e por muitissimo tempo, unicamente) Charles Fourier. Tinha ele descoberto que a sociedade comercial, como sempre foi desde o seu começo a sociedade americana, propunha como programa institucional justamente a subdivisão, a atomização do corpo social. Foi esta a crítica fundamental ao nascente industrialismo. Fourier caracterizava essa sociedade como fundada justamente sobre as “desigualdades” e sua “harmonia universal” estava perfeitamente em sintonia com a filosofia do marketing que a América nos legou. O que faz, realmente, o homem-marketing? Ele deve propor um produto a uma sociedade que, nos tempos de Fourier como nos nossos, é uma sociedade de desiguais. Como ele não pode propor seu produto como unicum, ele aposta nas motivações que dará aos consumidores, para que o acolham.

Veremos com mais detalhes o funcionamento deste mecanismo no relato de Meu tipo inesquecível de A. J. Cronin.

 

 

2. Três características em quatro relatos: a procura da fórmula, o papel dos “formadores de espírito(s)” e o “segredo”da existência:

 

I

Agosto, l945

Jacques D. por Jules Romain

 

“Conheci Jacques D.pela primeira vez em l931, na casa de um amigo comum em Paris, onde travei com ele longas e íntimas palestras. Mas foi só depois de sua morte, em l936, que vim a conhecer toda a história daquela extraordinária vocação.

Jacques era proprietário de uma série de armarinhos. Vivia só, com três criados, contando com uma renda de cerca de um milhão de francos por mês.

Filho de pais pobres, trabalhara numa pequena loja, onde tinha a cargo os balcões da calçada.

Durante aquele tempo, sofreu uma experiência que influenciou profundamente suas idéias sobre a vida e a humanidade, e motivou os atos surpreendentes que ele, por modéstia, não queria que chamassem de boas ações.

(...) Num dia de muito frio, Jacques, que tinha então quinze anos, tremia da cabeça aos pés, à porta do armarinho, vestido apenas com uma roupa leve e surrada, e trazendo em torno ao pescoço uma echarpe de fazenda muito fina. De repente, um homem em vestido parou, examinou-o atentamente e, segundo depois, entrou na loja. Ao sair, entregou a Jacques um capote quente e um boné de pele, dizendo-lhe simplesmente: “São para você. É um presente. Vista logo e não peça explicações. Estou fazendo isso para meu próprio prazer. Adeus, meu caro.”E afastou-se depressa.

O incidente impressionou profundamente Jacques. “Aquele homem fez-me ver,”disse-me um dia, “que qualidade rara é a bondade inteiramente desprendida, que nada pede em recompensa. Além disso, tive a impressão de que ele me havia confiado alguma fórmula secreta que só dependia de mim aplicar ou não, à minha própria vida.”

A fórmula secreta de Jacques era a seguinte: “Tentar proporcionar a estranhos uma das maiores alegrias que eles jamais sentiram.”

 

II

junho, 1942

- Uma lição de Rodin - por Stefan Zweig (Condensado da revista “Catholic World”)

 

Teria eu meus 25 anos quando estudava e escrevia em Paris. Já tinha certo renome como escritor, mas não era capaz de determinar em que consistia meu ponto fraco. Conheci então Rodin e recebi dele uma dessas lições que marcam uma mudançade atitude para o resto de nossas vidas. Estávamos conversando na casa de Verhaeren e o famoso escritor belga lamentava a decadência das artes plásticas. “ Por acaso o Penseur ou o Balzac de Rodin”, –disse eu– “não estão destinados a durar tanto quanto o mármore que os modelou?”. A conversa prosseguiu e Verhaeren, tocado por minha vehêmencia, resolveu me apresentar ao mestre. Na presença dele não consegui articular palavra. Mas como os grandes homens são sempre os mais bondosos, Rodin, vendo-me sem jeito, acabou por convidar-me a almoçar com ele em Meudon. Fomos visitar seu ateliê e a um certo momento tirando o pano que cobria seu último trabalho em curso, começou a retocá-lo, esquecendo-se completamente de mim. Sua ação durou meia hora, uma hora...Não me dirigia a palavra. Ao sair deu comigo e olhou-me surpreendido. – Desculpe-me, tinha-o esquecido completamente. O senhor compreende...

 (...) Foi nesse momento que surpreendi o segredo de toda arte e de todo êxito: – a concentração; a mobilização das forças totais do indivíduo para o cumprimento de sua missão, pequena ou grande: a capacidade de fixar sobre uma só cousa determinada a sua vontade, tantas vezes dispersa ou mal utilizada.

 

 

III

Julho, l942

Alain escolheu o caminho mais longo por André Maurois

 

 Professor, filósodo, ensaísta, Émile Chartier (Alain) foi, acima de tudo, um formador de espíritos.

 

“Era eu um adolescente quando o conheci. Já lá vão quase 40 anos, e no entanto, minha admiração pelo seu gênio e seu caráter mantém-se inalterável

Em l901 éramos estudantes no Liceu de Rouão e os alunos mais velhos nos haviam contado acerca desse professor de Filosofia ainda novo, cuja imaginação vivaz tornava as aulas em diferentes das demais. Ficou durante instantes a olhar-nos, sem dizer palavra; depois, tomando nos dedos um pedaço de giz, traçou no quadro estas citações de Platão: “Busquemos a verdade com toda a nossa alma” e “Devemos escolher sempre o caminho mais longo”.(...) Tinha firmes pontos de vista pessoais sobre a educação da mocidade. Pensava que o trabalho deve ser trabalho e não folguedo;

que a melhor das lições consiste em resolver um problema; que só os grandes labores podem tornar grandes as almas.(...)Só os parvos se crêem originais – declarava ele – quando menosprezam as idéias das gerações que os precederam. A verdadeira originalidade consiste em bem tornearlugares-comuns.

Quando terminei meu curso no Liceu de Ruão, pretendia fixar-me em Paris, para lançar-me à carreira de escritor. Porém, meu pai insistiu para que eu desse entrada na sua fábrica, instalada na Normândia. Com grande surpresa minha, Alain concordou: “Se o senhor começa como escritor, nunca aprenderá nada da vida e dos homens. Dará entrada na existência irreal da minoria intelectual dos cafés e salões de Paris. Não foi isso que fizeram os melhores romancistas: Balzac foi empregado num tabelião, Dickens e Kipling foram repórteres, Stendhal e Tolstói foram militares e Conrad, marinheiro. Se o senhor entrar para uma fábrica, ficará conhecendo patrões, operários, o trabalho duro. Viverá, numa palavra. Só depois de termos vivido, temos o direito de pintar a vida”.

 

 

IV

Janeiro, l947

Madame Hsiung por Pearl S. Buck

 

“Moramos em Namquim durante 17 anos, ao lado da casa em que residia Madame Hsiung, as duas casas separadas por um muro. Do nosso lado havia a casa, um jardim, e nossa família que compunha-se de quatro pessoas. A residência dela era de um andar com cincoenta quartos divididos de dois em dois, de tres em tres, de quatro em quatro, numa série de pátios ligados um ao outro por corredores. E pertenciam todos a uma só família – a de Madame Hsiung – 72 criaturas ao todo.

(...) Nossa amizade surgiu de um ramalhete de rosas do nosso jardim, que lhe oferecera. Descobri que tinha especial predileção não pelas rosas, que considerava um tanto vulgares, mas pelo jasmin do Cabo. No jardim de nossa casa havia vários pés dessa planta. Levei-lhe alguns ramos. Graças a ela aprendi que essas flores devem ser colhidas de madrugada, ainda frescas de orvalho. – Com o sol, o perfume perde sua suavidade, explicou-me docemente. É preciso colhê-las de madrugada e oferecê-las imediatamente. – Mas minha senhora, protestei – a tais horas hei de encontrá-la dormindo.– Experimente, foi a resposta.(...)

Aos poucos vim a conhecer a família que ela chefiava, exercendo, como exercia, autoridade absoluta na casa.(...) Madame Hsiung teria sido capaz de governar o país. Sentada no seu canto, lia e relia os livros que lhe destilavam no espírito a sabedoria dos antigos, dirigindo, ao mesmo tempo, a casa e a imensa família do primeiro ao último. (...) Não ensinara as filhas a ler. – E por que não, madame? perguntei-lhe um dia. – Saber ler não torna as mulheres mais felizes, foi sua resposta um tanto evasiva. (...) Madame Hsiung nunca repreendia, mas agia inexoravelmente. (...) Tudo o que fazia era no interesse de outra pessoa, e não em seu próprio benefício. Para com um amigo, uma criança, ou um desconhecido, seu espírito de justiça era sempre o mesmo. A justiça pode ser ríspida e fria, mesmo ao ser perfeita;mas Madame Hsiung nada tinha de fria. (...)

– Madame, a senhora gosta mais de seus filhos que das filhas, não é? Ou melhor, prefere os homens às mulheres?

Ela acolheu a pergunta, como de costume, com alguns minutos de silêncio, e depois respondeu: –É verdade que às vezes sou impaciente com as mulheres. Mas não é verdade que não gosto delas.

– E por que motivo é impaciente conosco? insisti.

– As mulheres têm grande poder, respondeu simplesmente (...)

– A senhora disse que as mulheres têm muito poder? perguntei novamente naquele dia.

– Têm, respondeu. – O maior poder que existe sob os céus.

– Qual? persisti.

– O poder sobre a vida, respondeu.

 

 

Leitura 1

 

Estes quatro relatos têm aparentemente em comum três características básicas que vieram a inserir-se na imagem que formamos do Modelo americano. A saber: I - a procura de fórmulas de comportamento (do tipo): “assim na casa como no estado”, (Mme. Hsiung) “assim na escola como na vida” (Alain); “assim no pequeno como no grande”, “agora como para o resto de nossas vidas”(Rodin);”como fizeram comigo, assim farei com os outros” (Jacques D.) II - a importância dada aos “Formadores de espírito”(Os quatro nomes-título); III - A fascinação por um “segredo” da existência ou uma “síntese”que encerre os ensinamentos dos formadores e sirva de modelo para os interlocutores (e leitores). (Todos eles)

 

Leitura 2

 

A fórmula está inserida visceralmente no Modelo americano que procura acompanhar o indivíduo do berço ao túmulo – exemplifica Umberto Eco (Eco: 28)–, na organização de sua viagem, de sua mudança, de sua casa, de seu enterro.... Só que essa tendência-mãe que Eco chama de tudo-ou-nada ou pegue-largue, remontando à “grande e terrível, útil e revolucionária invenção da linha de montagem, onde não há espaço para o bricolage (...) força e fraqueza da América e força e fraqueza de nosso futuro desenvolvimento (a serialização...)”, vem acompanhada pela sua antífrase “só-uma-parte-por-vez” ou seja, a especialização extremada.

Tem-se dito que a coexistência de contrários é marca de nossa época pós-moderna. Pode ser que hoje ela seja mais conspícua, mas este caráter difusamente antitético já é visível acompanhando as formulações de grande parte dos relatos apresentados. “Devemos escolher sempre o caminho mais longo”– diz Alain, citanto Platão. No entanto, logo adiante acrescenta “a melhor das lições consiste em resolver um problema. Ora, em nossa civilização a resolução do prolema costuma exigir que se vá direto ao ponto... Da mesma forma, a frase “só os grandes labores podem tornar grandes as almas”contrapõe-se, de certa forma, à lição de Rodin: “a mobilização das forças totais do indivíduo, para o cumprimento de sua missão, pequena ou grande...”.E Madame Hsiung, a encarnação do espírito de justiça,não quis que as filhas aprendessem a ler porque “saber ler não torna as mulheres mais felizes”.

 

3. O fenômeno do “marketing” e seu funcionamento:

 

Março, l950

Olwen Davies por A.J. Cronin

 

Olwen Davies contava apenas 22 anos quando terminou o estágio no hospital e foi designada para o posto de enfermeira visitadora no distrito de Tregenny, rústica comunidade mineira encravada numa montanha do País de Gales. O quarto que lhe coube habitar, na única rua da vila, era frio e pobremente mobiliado. Os habitantes, extremamente retraídos e intimamente ligados por laços de parentesco, pareciam não gostar da presença da enfermeira.

Apesar da frieza com que fora recebida, Olwen entregou-se com entusiasmo à sua missão, caminhando a pé pelas trilhas ermas da montanha, sob as intempéries, para visitar os enfermos ou tratar dos poucos pacientes que recorriam à modesta clínica mantida pela Junta Rural de Saúde.

(...) Lá pelo fim do seu primeiro verão em Tregenny, sobreveio na localidade uma epidemia de escarlatina. (...)Longe de se deixar desanimar, Olwen aceitou o desafio. Reuniu amostras de leite, de água de poço e de outros possíveis veículos da doença e levou-os ao laboratório de Saúde Pública de Cardiff.(...) A “intervenção indébita”suscitou imediatamente protestos gerais.

(...) O foco da infecção fora identificado no leite da Leiteria Morgan.

(...)Assim que se restabeleceu de todo, Morgan pôs-se a falar abertamente na gratidão que devotava à infermeira.

(...) No fim do ano um grande acontecimento teve lugar – uma comissão local, encabeçada por Idwal Morgan, presenteou a enfermeira com uma sólida bicicleta, de três mudanças.

(...) Olwen tinha pequenas e inocentes fraquezas humanas. Gostava de um bom cigarro depois do café e, quando mais velha, do seu copo de cerveja preta. Apesar de não ser de inteligência brilhante, possuía uma reserva inestimável de bom senso, aliada a uma notável presença de espírito..

(...) Aquela velha bicicleta preta parecia realmente fazer parte integrante de Olwen Davies.

(...) Na véspera de minha partida [surgira para mim uma excelente oportunidade em Londres]

quando, melancolicamente, fui despedir-me dela, observei: – Dentro em pouco você dirá também

adeus à bicicleta. Não precisará mais dela quando estiver à frente do hospital.

– Creio que continuarei precisando de minha velha bicicleta. Não serei a enfermeira-chefe.

– Que me diz!? exclamei aturdido. – Depois de tudo o que fez pela comunidade? Mas se Morgan, o povo – todos querem que seja você!

– Talvez, disse ela suavemente.

– Mas o novo cirurgião quer trazer de Cardiff a sua enfermeira-chefe. Ela é muito competente, muito mais do que eu, e o posto lhe pertence.

– Impossível, balbuciei.

(...) Passaram-se alguns anos antes que eu voltasse a Tregenny. (...) De repente estaquei.Acabara de avistar Idwal Morgan, ainda robusto e forte parado diante de sua leiteria. Reconheceu-me imediatamente e apertou-me as mãos com efusão. Perguntei-lhe logo pela enfermeira Davies.

(...) – Não soube que a pedi em casamento? (...) Ela não quis, porém aceitar. Presa demais ao trabalho. Devotada, tão devotada ao seu trabalho....

(...) Sentada numa cadeira de rodas, grisalha, meio curvada, antes magra do que velha, as pernas paralíticas envoltas num cobertor, lá estava, sempre no seu uniforme, a enfermeira do distrito.

Cercada de pacientes, em sua maioria crianças, às quais atendia alegremente, movia-se rápida, pela sala em sua cadeira de rodas. Deixei-me ficar imóvel, num canto escuro. Quando o último paciente se retirou, corri para ela e apertei-lhe as mãos – aquelas mãos gastas, tão capazes, que durante meio século haviam servido a humanidade sofredora.

– Enfermeira Davies...Olwen! exclamei. – Como vai você?

– Bem. Como vê... continuo trabalhando. E, dando-me o seu mais luminoso sorriso:

– E sempre sobre rodas.

 

Leitura 1

 

O painel que nos apresenta este relato é sem dúvida rico em pinceladas de operosidade, abnegação e desprendimento. Ou, para citar o texto de l947 de Cesare Pavese: “Um grande teatro, onde, com maior sinceridade que em outros lugares, é apresentado o drama de nós todos”.

 

 Leitura 2

 

A instituição do marketing enquanto “filosofia concreta” de nossa existência (Ceserani: 73) fragmenta sempre mais a sociedade, a divide sempre mais, porque – de seu ponto de vista – todos os comportamentos são aproveitáveis.Claro está que a sociedade americana dos anos 40-50 era mais “massificada”que a de hoje. Isso se explica pelo fato de a multiplicidade de comportamentos, que sempre existiu, ter sido como que abafada por um tecido social que se exprimia em poucos modelos comportamentais validados.

Nossa sociedade (Ceserani:72) escolheu como profeta Marx e não Fourier. A bizarra sociedade de Fourier propunha-se justamente a tarefa de mediar o processo de fragmentação implícito na moderna sociedade comercial. E de usar a diferenciação entre os homens como base de uma sociedade que a previsse. O que fizemos nós, ao contrário, com nossa sociedade baseada utopisticamente na igualdade? Deixamos de entender a matriz do fenômeno em tempo útil, e como ele se implanta.

Nesse relato de Cronin observam-se privilegiadamente as etapas desse fenômeno: o assim chamado processo da marketização.

I - Olwen Davies é uma enfermeira não só competente e com boa prática de seu serviço (o produto que ela tem para oferecer), mas tem, além do sentido de responsailidade, espírito de iniciativa, conforme se pode ver pelo incidente da escarlatina.

II - Ela acaba se integrando a contento na comunidade que primeiramente a rejeitava (torna-se uma pessoa como as outras dessa comunidade. É associada à bicicleta preta que parecia realmente fazer parte de sua personalidade, emblema “fixado” de seu modelo comportamental).

III - Passam os anos. O novo mercado que se instala aos poucos na comunidade mineira é mais diferenciado que o antigo. Ao novo cirurgião, diferente do anterior, já não interessa, para o novo modelo de hospital, o produto tal como ela o representa. Para um cargo diferente (enfermeira-chefe-do hospital) faz-se necessário um modelo comportamental diferente (competência) de uma enfermeira diferente.

 IV- Mas para o marketing, (“filosofia concreta”da existência, não se esqueça) todos os comportamentos são bons: basta encontrar o nicho onde colocar Owen Davies e as motivações que convençam a ela (e ao leitor) da justeza dessa diferenciação. Quanto a ela, além de sua suavidade natural que lhe faz aceitar tout court que a outra profissional seja enfermeira mais competente do que ela,a vida se encumbe do resto: ela fica paralítica após um acidente.

Quanto ao leitor, é convenientemente insinuado que Owen Davies tinha lá suas fraquezas (fumo e cerveja) e não era tão inteligente assim. Owen Davies, que recusou o casamento com Morgan (compensação que a vida apressou-se em oferecer-lhe segundo a fórmula “fecha-se a porta mas abre-se a janela”), inexplicavelmente (antiteticamente?), por estar “presa demais ao trabalho”, está feliz assim, no seu devido lugar: entre os pacientes, (principalmente crianças, seu público-alvo) ecom uma ponta de vulgaridade da qual se falará mais adiante – sempre sobre rodas.

 

4. Um inato “toque de vulgaridade”:

 

Fevereiro, l944

Como se revelou meu pai por Sherwood Anderson

 Pai e filho eram como estranhos – até que uma noite se tornaram amigos.

 

Por muito que o não pareça, de todas as relações entre a espécie humana, nenhuma há mais imponderável do que a existente entre pai e filho. Sei-o por experiência própria.

Em via de regra o filho anseia para que em seu pai concorram qualidades acima do comum.Por outro lado ouve-se dizer que os pais aspiram a que seus filhos sejam o que os pais não podem ser; posso afirmar que a recíproca também é verdadeira.

Por mim sei que em rapaz eu queria que meu Pai fosse aquilo que ele não era. Queria eu que fosse pessoa de grande compostura; que quando em companhia de outros rapazes, eu o visse passar ao longo da rua, me fosse possível apontá-lo com orgulho e dizer-lhes: - “Lá vai ele. Aquele é o meu pai...”. Não quis o destino porém, que assim acontecesse.

(...) Se houvesse qualquer manifestação pública, como, por exemplo, uma parada no aniversário da Independência da América, ou no Dia de Finados, lá estaria meu pai pela certa, à testa da função, feito Marechal, ou coisa que o valha, escarranchado num bucéfalo branco alugado nalguma coudelaria. Nem um cavalo de brinquedo sabia montar! Perdia as estribeiras e caía da sela abaixo, provocando gargalhada geral que em nada o perturbava. Parecia até gozar com a troça que dele faziam.

(...) Outras vezes acontecia estar já eu deitado, à noite, e ele chegar a casa, um pouco alegre da “pinga”e trazendo outros homens em sua companhia.

Antes de ter falido (tivera uma loja de seleiro), no seu estabelecimento parava sempre uma quantidade de homens que não tinham que fazer. Meu pai faliu, claro está, por ter vendido quase tudo fiado. Não sabia recusar nada a ninguém, o que me exasperava. Cheguei a detestá-lo.

(...) “Vocês conhecem o livro de memórias do General Grant? continuava meu pai. Recordam-se de como ele declarou achar-se atacado duma dor de cabeça? (...) “Ah!Ah!Ah! Ele estava comigo no bosque, tomando uma pinga! ”

 

Leitura 1

 

Poder-se-á notar que alguns dos escritores que escreveram sobre Meu tipo inesquecível não são americanos. É verdade, mas escreveram o que o público consumidor de Seleções queria ler.É esse público que encontrou neles seus formadores de opinião, sincera e singela e autêntica, como é sincera a atitude desse menino que não queria que o pai fosse considerado o palhaço do povoado e sentia-se mal quando isso acontecia.

 

Leitura 2

 

A “sinceridade” desses relatos é parecida, para os leitores de hoje, com a “sinceridade” que Ceserani encontrou no seriado Dallas, sinceridade esta, que para corresponder à expectativa do público-alvo (o target do título de seu ensaio, cf. nota 5) deve, no dizer de Dwight Mcdonald (Ceserani: 81) possuir “um inato toque de vulgaridade”. Admitamos que o pequeno herói de Sherwood Anderson estivesse realmente mortificado por ter um pai daquele jeito. Admitamos que, do ponto de vista psicanalítico, quisesse extravasar este misto de desgosto, raiva, violência e vingança em expressões que ferissem a imagem do pai, ou – conceda-se – o próprio pai. Admitamos que o narrador, como bom medium que algum escritor às vezes consegue ser, tivesse captado essa agressividade; mesmo assim – convenhamos– este homem “escarranchado num bucéfalo branco alugado nalguma coudelaria, [que] parecia até gozar com a troça que deles faziam [e que dizia que estava no bosque com o general Grant] tomando uma pinga!” mais do que “tocado pela vulgaridade”, parece ter sido brutalizado pela escrita. Que vá por conta da tradução. Fiquemos com o toque vulgar, inclusive o da cadeira de rodas, grosseiramente equiparada à bicicleta, no final do relato da infeliz/feliz enfermeira Olwen.

 

 

Apêndice

 

Colocamos em apêndice a relação de todos os textos levantados da seção Meu tipo inesquecível da coleção de Seleções do Readers’Digest da década que vai de l942 a 1951.(A seção não aparecia em todos os números e em alguns números apareciam textos típicos da série, sem os dizeres “ Meu tipo inesquecível”. A notação (ou a falta dela) consta na relação). Os textos que foram analisados (todos de escritores conhecidos) estão em negrito.

 

1942

Fevereiro. Meu tipo inesquecível: O médico de Lennox de William Burnett Benton p. 1

Março. “Um inglês na China de Carl Glickp.53

Abril. “Mãe de filhos alheios de Manuel Komroff p.22

Maio. “Fialelei queria bem a todos de Robert Flaherty p.83

Junho: Uma lição de Rodin de Stefan Zweig p. 40

Julho. “Alain escolheu o caminho mais longo de André Maurois p. 17

 

1943

Janeiro. Meu tipo inesquecível: Anton, amigo de todo mundo de Stephan Zweig, p. 32

Maio. Meu tipo inesquecível: Mestre de minha infância de Marc A. Rose p.66

Junho. Meu tipo inesquecível: Meu tio Azougue de Robert P. Tristram Coffinp. 40

Julho. Meu tipo inesquecível:O sermão entre as neves de A. J. Cronin p. 11

Setembro: Walt Whitman de Max Eastmanp. 31

 

1944

Fevereiro. Meu tipo inesquecível: Como se revelou meu paide Sherwood Anderson p.19

Maio. “Um coração debaixo do uniforme de Donald D. Peattie p.9

Novembro “Chuck e o circo de Ben Hecht p.19

Dezembro “Paul Van Ande de J.D. Rattcliff p.81

 

1945

Janeiro.Meu tipo inesquecível: Tony, o médico de Joseph Auslander p.28

Abril. “Le Baron Russell Briggs de Henry James Forman p.59

Agosto. “Jacques D. de Jules Romain p. 59

 

1946

 

Março. Meu tipo inesquecível: Peter D. de Stephen Leacock p.61

Maio.: Apoteose de um médico humilde de Lewis C. French p.33

Junho. “A Senhora Stevenson de Austin Shong p.21

Julho. “O mordomo P. de Sydney Greenye p.23

Outubro “Toughy de Hiram Hays p.60

 

1947

Janeiro. Meu tipo inesquecível: Madame Hsiung de Pearl S. Buck p. 1

Abril. “Sem título de Roert Hillyer p.75

Junho. “de I.A.R. Wylie p.67

Agosto. “de Richard English p.27

 

1948

Março: Salvatore Cascavilla de Fredric Sonders Jr. p.60

Abril. Meu tipo inesquecível: Sem título de William La Varre p. 56

Agosto. “Sem título de John L. O’Hara p.64

Novembro. “Anton, o amigo de todos de Stefan Zweig p.32

 

1949

Abril. Meu tipo inesquecível: Tio Si de Mabel Bambee Lee p. 34

Maio. “Sem título de Benedict Thielen p.60

Julho. “Sem título de Patricia Rawleans p.61

Novembro “Sem título de Edith N. Stern p 52

Dezembro: O pai de John Steinbeck p.37

 

1950

Janeiro. Meu tipo inesquecível: Sem título de Henry Shindall p. 73

Fevereiro: Um casal inesquecível de Octavus R. Cohen p.57

Março “Olwen Davies de J. Cronin p.49

Junho “Tia Rose de Hildegarde Hawthorne p. 115

Agosto. “La “Bimbina”de Angelo Pellegrini p.55

Dezembro. “Tony Cucolo De J. P. McEvoy

 

l951

Janeiro: Por que creio em Deus de A. J.Cronin p.23

Junho Meu tipo inesquecível: Sem título de Captain H.T. Peoples p. 29

Agosto “Sem título de Mary Bard p. 117



[1] Collezione di sabbia - Arnoldo Mondadori Editore, Milão, 1990.

[2] “diverso da tutto ciò che si era sempre aspettati di trovare come nuovo”p. 15, op. cit.

[3] op. cit. p. 21. Calvino escreve este ensaio sob o impacto da exposição A América vista pela Europa, organizada no Grand Palais de Paris, em l976.

[4] Temos em mente aqui, entre outros, particularmente Una pietra sopra - Einaudi, l980 e La strada di S. Giovanni, Einaudi, l990.

[5] Laterza, Bari, l984. Os textos de Eco, Ceserani e Placido são respectivamente os seguintes: O modelo americano; Uma América marcada “target” e A invenção da América.

[6] Valemo-nos aqui de uma coleção da referida publicação, gentilmente cedida para a nossa pesquisa pelo colecionador Iuri Lutski, que abrange o período de l941 a l951, onde focalizamos a série denominada Meu tipo inesquecível.(Vide Apêndice). Após o início da década de 60 o interesse pela revista declinou no Brasil (embora muito mais reduzida, ela continua existindo ainda hoje). A consciência nacionalista daqueles anos repudiava em Seleções os artigos políticos ideologicamente marcados, mas isso coincidiu com uma mudança na política cultural exterior americana que repercutiu em Seleções elevou, entre outras coisas, ao fechamento para o público em geral da Biblioteca do U.S.I.S, que em São Paulo tivera sede primeiro na Rua 7 de Abril e depois no Conjunto Nacional.

[7] A simplicidade, a”materialidade”, a concretude, totalmente ausentes no fragmentarismo e no hermetismo de então, na Itália, eram particularmente valorizadas pelos leitores. A respeito deste romance, Placido lembra uma paródia que saíu publicada num jornal humorístico da época, - não recorda se Bertoldo ou Travaso: Em Oklahoma ou por ali diz o pai camponês ao filho: “Você levou a vaca ao touro?”. “Levei, sim senhor”. “E você fez tudo direito?” “Fiz, sim senhor, mas pior do que teria feito o touro”. “Em sua despudorada aproximação”– comenta Placido – “essa paródia grosseira revela porém a carnalidade, a fisicalidade plena, por vezes grotesca, por vezes doída, que se lia no romance americano”. No texto de Steinbeck relacionado no apêndice (Dez. 49: O pai) podem se assinalar alguns trechos, também significativos nesse sentido.

[8] Francis Otto Matthiesen em seu Renascimento Americano (apud Placido: 113), reconstituindo o período americano entre l850 e l855, situa Whitman ao lado de Melville, Hawthorne, Emerson, e Thoreau, como um dos autores de uma das cinco obras primas que estruturam a literatura americana.

[9] Aqui está o trecho original da obra de Tocqueville escrita em 4 volumes, entre l835-40, e citada por Placido:

 “Les hommes qui vivent dans les temps démocratiques ont beaucoup de passions; mais la plupart des leurs passions aboutissent à l’ amour des richesses ou en sortent. Cela ne vient pas de ce que leurs âmes soient plus petites, mais de ce que l’importance de l’argent est alors réellement plus grande. [...] Le prestige qui s’attachait aux choses anciennes ayant disparu, la naissance, l’état, la profession ne distinguent plus les hommes ou les distingueent à peine [...]. Chez les peuples aristocratiques, l’argent ne mène qu’à quelques points seulement de la vaste circonferénce des désirs; dans les démocraties, il semble qu’il conduise à tous.”